quinta-feira, 19 de julho de 2012
Súbito, as calçadas
Lá, venho eu, descendo a rua pela calçada da esquerda, distraído, ao sol da manhã, imerso em meus pensamentos, divagando vida afora.
Súbito, um latido feroz junto ao portão de uma casa já envelhecida, nessa esquerda da rua. Susto, mais que susto, um solavanco na alma, uma mensagem feroz do prisioneiro daquelas grades enferrujadas de um portão, de um desesperado por sua situação de claustro e isolamento.
Balanço a cabeça. Do susto à ira, ao inconformismo com o inoportuno, com a agressão às minhas divagações.
Súbito, tropeço no que parecia ser um pedaço de osso, carcomido e enegrecido. Do susto à ira, da ira ao ódio. Não! Isso não! Busco o alfa, o fio perdido daqueles meus pensamentos.
Mas o latido continua, não para e jamais irá parar. Os vizinhos se incomodam com a balbúrdia do ativista da casa, do canil à esquerda.
Mudo de calçada, para a da direita da ladeira. Reponho minhas divagações, afino meus pensamentos.
Súbito, um buraco - um buraco vazio, um buraco moral - um tropeço e me agarro ao portão ao lado, com pintura recente a encobrir a ferrugem antiga. Um portão, um outro portão, de uma casa, de uma outra casa, tão envelhecida quanto.
O ataque veio forte, a mordida com endereço certo. Tiro as mãos, escapo da dentada, da ofensa, da agressão. O rosnado é profundo, não para e nunca irá parar. O ódio do cão da casa da direita é contínuo, medonho.
Balanço a cabeça. Do susto à ira, ao inconformismo com o inoportuno, com o acometimento às minhas novas divagações.
Súbito! Não há mais súbito. Não há mais calçadas. À direita e à esquerda, calçadas, sim. Com buracos, ossos e tantos outros percalços às nossas divagações, aos nossos propósitos, à nossa ideologia.
“A virtude está no meio”, disse Aristóteles. Pois, então, que busque seu caminho pelo centro da rua. Tanto à direita, quanto à esquerda, não há caminho para nosso inconformismo, para nossa ética, para nossas divagações.
Continuamos nossa jornada. Ladeira abaixo?
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